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68% da perda não passou pela porta. Nasceu dentro da loja

Maicou Andrade5 min de leitura
68% da perda não passou pela porta. Nasceu dentro da loja

Você já colocou câmera na entrada. Já pôs lacre no depósito. Já contratou o segurança que fica de olho no corredor de bebidas.

E mesmo assim a loja continua sangrando.

O motivo é simples e incômodo. A maior parte do que evapora da sua operação nunca passou pela porta com o produto embaixo do braço. Foi jogado no lixo pela sua própria equipe, no horário comercial, com a nota fiscal paga.

A curva de melhora quebrou em 2025

Durante alguns anos o varejo brasileiro vinha melhorando devagar no índice de perdas. Isso acabou.

Segundo a 9ª Pesquisa Abrappe de Prevenção de Perdas, feita com a Protiviti e divulgada em junho de 2026, as perdas do varejo brasileiro somaram R$ 42,1 bilhões em 2025. Alta de 15,3%. No mesmo período o faturamento do setor cresceu 6,4%. A perda cresceu 2,4 vezes mais rápido que a venda.

O índice médio saiu de 1,51% em 2024 para 1,65% em 2025. A própria pesquisa traduz isso de um jeito que qualquer operador entende: a cada R$ 61 vendidos, R$ 1 se perdeu. No ano anterior era R$ 1 a cada R$ 66.

O Sincovaga fez a conta que dá a dimensão. Se essas perdas fossem o faturamento de uma empresa, ela seria a quarta maior do varejo alimentar brasileiro, à frente dos R$ 21,2 bilhões do Supermercados BH.

Não é efeito de inflação. É deterioração de processo.

O ladrão responde por 28%. Você responde por 68%

Aqui está o dado que muda a conversa.

Na Pesquisa de Eficiência Operacional da ABRAS de 2025, a quebra operacional saltou de 59% para 68% do total das perdas em um único ano. O desvio operacional, que é furto e roubo, responde por 28%. O resto é erro administrativo.

Quebra operacional tem nome e sobrenome dentro da loja. É a validade que venceu na gôndola do fundo. É a caixa de tomate que ficou três horas na doca no sol. É o frango assado que a rotisseria produziu em dobro porque "quinta costuma sair bem". É a câmara fria que ficou dois graus acima e ninguém registrou. É o repositor que empilhou errado e amassou meia caixa de biscoito.

Nada disso aparece na câmera. Nada disso o segurança da porta resolve.

Faça a conta na sua realidade. Se 68% da perda é quebra operacional e o índice médio é 1,65% do faturamento, sobra cerca de 1,12% do que você fatura sendo jogado fora por dentro. Numa loja de R$ 2 milhões por mês, isso é perto de R$ 22 mil mensais. R$ 270 mil no ano. Sem ladrão nenhum envolvido.

E esse é o único pedaço da perda sobre o qual você tem controle total e imediato.

O atacarejo perde menos da metade da loja de vizinhança

A ABRAS também abriu o índice de ineficiência por formato em 2025:

  • Atacarejo: 1,41%
  • Hipermercado: 1,88%
  • Supermercado convencional: 2,07%
  • Loja de conveniência: 2,47%
  • Loja de vizinhança: 3,03%
  • Contêiner em condomínios: 5,13%

Leia de novo. A loja de vizinhança perde mais que o dobro do atacarejo, em percentual do faturamento.

E não dá para dizer que é sorte de formato. A ABRAS registra que a participação de perecíveis está crescendo em quase todos os formatos, inclusive e principalmente no atacarejo. Ou seja: o atacarejo está assumindo o produto mais difícil de gerenciar e ainda assim perde menos.

A diferença não é preço, não é metro quadrado, não é sistema caro. É rotina. Conferência de recebimento que acontece todo dia, no mesmo horário, com o mesmo checklist.

Se a sua loja de vizinhança está em 3,03% e o benchmark do atacarejo é 1,41%, o gap é de 1,62 ponto percentual. Naquela loja de R$ 2 milhões por mês, isso vale cerca de R$ 32 mil mensais. Perto de R$ 390 mil no ano, direto na linha final. E perda evitada não tem custo de aquisição de cliente nem imposto sobre venda nova. Cada real recuperado vale mais que um real vendido.

A seção que consome mais do que o lucro da loja

O mapa da ABRAS 2025 por seção não deixa dúvida sobre onde começar:

  • Flores: 6,67% (era 4,89% em 2024)
  • FLV / hortifruti: 4,73%
  • Padaria e confeitaria: 4,62%
  • Rotisseria: 3,66%

Quase todas subiram contra 2024.

A ACATS coloca o dedo na ferida: em perecíveis, dependendo da categoria, a perda passa de 6%, valor superior à própria margem líquida do negócio. Traduzindo para o chão da loja: você opera uma seção estratégica que consome mais do que o lucro que a loja inteira gera.

Nesse cenário a pergunta "como vender mais" é a pergunta errada. A pergunta certa é quanto do seu hortifruti está financiando a caçamba do lixo.

O self-checkout abriu um buraco novo

O consumidor já migrou. Dado da APAS aponta que cerca de 7 em cada 10 brasileiros preferem finalizar a compra no autoatendimento, e as grandes redes aceleraram a instalação de terminais entre 2025 e 2026.

O problema é operacional e direto. Quando o cliente opera o caixa, a conferência que um operador treinado fazia deixa de existir. Item pesável e código digitado errado viram a nova fronteira da perda.

O cálculo de payback que a maioria fez considerou só a economia com operador. Faltou a linha da perda nova. E existe um paradoxo aí: quando você aperta demais as travas de monitoramento, o terminal vive travando com "aguarde a assistência", gera fila e constrangimento, e mata justamente a agilidade que justificou o investimento.

Antes de comprar mais terminal ou mais tecnologia de vigilância, meça uma coisa: qual o índice de perda dos SKUs que passam pelo self-checkout comparado aos que passam pelo caixa tradicional. Sem esse número, é aposta.

Segunda-feira de manhã

Escolha uma seção. Comece pela que mais perde na sua loja, provavelmente FLV ou padaria.

Defina três rotinas e coloque nome de gente em cada uma. Conferência de recebimento com registro, não de olho. Controle de validade com curva ABC, olhando primeiro o que gira menos. Ficha técnica de produção na padaria e na rotisseria, dimensionando pela venda real da última semana e não pelo "acho que vai sair".

Depois meça. Perda medida por seção, por semana, comparada com a semana anterior. Perda que não é medida não é gerenciada, é apenas descoberta no inventário, tarde demais.

Câmera e lacre cuidam de 28% do problema. Os outros 68% dependem de rotina, de dado na tela e de alguém cobrando. É menos glamouroso e vale muito mais dinheiro.

Fonte: ABRAS

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