O dinheiro que dorme no seu depósito custa 14% ao ano

O depósito está cheio. A câmara fria está cheia. E o caixa está apertado.
Você passa pelo corredor dos pallets e vê arroz empilhado até quase o teto. Aquilo parece segurança. Comprou bem, comprou na verba, garantiu abastecimento para o encarte. O representante saiu satisfeito.
Só que aquele pallet não é mercadoria. É dinheiro deitado, esperando alguém vir buscar.
Você não comprou mais mercadoria. Comprou mais caro.
Entre janeiro e maio de 2026, o varejo alimentar brasileiro cresceu 5,1% em valor sobre o mesmo período de 2025. O volume vendido caiu 0,2%. Os dados são da Mtrix Market, empresa da NIQ, divulgados em agosto de 2026. O que puxou o faturamento foi o preço médio, que subiu 5,3%.
Leia de novo, porque essa frase decide a sua compra do mês: saiu da loja praticamente a mesma quantidade de produto do ano passado, por mais dinheiro.
Agora vire o raciocínio para dentro do depósito. Se a sua política de compra é medida em reais, e não em unidades e dias de venda, o seu estoque engordou junto com o preço sem que ninguém tenha decidido nada. O mesmo pallet, o mesmo giro, mais capital preso.
O dinheiro parado tem preço de tabela
Em 5 de agosto de 2026, o Copom cortou a Selic para 14% ao ano, o quarto corte seguido no ciclo que começou em março, quando a taxa estava em 15%. A decisão foi unânime.
Caiu, e continua alta. Catorze por cento ao ano dá cerca de 1,1% ao mês.
Faça a conta com o seu número. Um milhão de reais em mercadoria parada trinta dias a mais do que precisava custa algo perto de onze mil reais naquele mês. Não em quebra, não em furto, não em vencimento. Só em dinheiro que ficou dormindo quando podia estar quitando fornecedor, cobrindo folha ou simplesmente rendendo.
Onze mil reais é uma margem que você briga para conseguir em promoção. E some sem aparecer em nenhuma linha do seu DRE.
Esse é o problema do estoque excedente: ele não tem conta contábil própria. Perda tem laudo. Quebra tem relatório. Estoque parado só tem pallet.
Cobertura é o indicador que a sua reunião de segunda não tem
Quase toda rede acompanha ruptura. Quase nenhuma acompanha cobertura.
Cobertura é simples: pegue o estoque atual de um item e divida pela venda média por dia. O resultado é quantos dias você tem daquele produto. É o mesmo dado do relatório de estoque, só que lido pelo lado do tempo em vez do lado da quantidade.
Muda tudo, porque tempo você compara. Trezentas caixas de amaciante não dizem nada sozinhas. Sessenta e dois dias de amaciante dizem que alguém comprou uma campanha inteira de uma vez.
Em junho de 2026, a SuperHiper, revista da ABRAS, publicou o caso de uma rede que reduziu cerca de dez dias na cobertura geral de estoque em noventa dias de projeto, atacando ao mesmo tempo excesso e ruptura. Não é um número mágico, é um número possível. E dez dias de cobertura, na sua rede, é uma pilha de dinheiro que volta para o caixa uma única vez, mas volta.
Excesso e ruptura moram na mesma loja
Aqui está a parte que engana o dono.
O estoque total da rede parece equilibrado. A média fecha. Mas média de estoque é uma das mentiras mais confortáveis do varejo.
Na prática, a mesma loja tem quarenta dias de sabão em pó e três dias de iogurte. Um comprador travou capital numa negociação boa demais para recusar. Outro está com medo de faltar e comprou por cima. A média dos dois dá "normal".
Excesso e ruptura não são opostos. São o mesmo defeito de decisão aparecendo em dois lugares. Ninguém está olhando o item pelo tempo que ele leva para sair.
Onde o estoque engorda sem ninguém decidir
Quatro portas, todas dentro da sua operação.
A bonificação. A verba compensa hoje e sequestra caixa por três meses. Bonificação boa é a que cabe na cobertura que o item já tem.
O caminhão fechado. Você completa carga com o que não gira para economizar frete. O frete economizado costuma ser menor que o capital imobilizado.
O encarte que não vendeu. Comprou volume para a campanha, a campanha não performou, e o saldo virou estoque permanente. Ninguém revisa o depois do encarte.
O cadastro errado. Fator de conversão trocado inflando ou esvaziando o saldo. O sistema sugere compra em cima de um número que não existe, e a sugestão automática espalha o erro em velocidade de máquina.
Segunda-feira de manhã
Você não precisa de projeto novo nem de sistema novo para começar. Precisa de um relatório e de duas horas.
Puxe estoque atual e venda média diária dos últimos 60 dias por item. Crie a coluna de cobertura em dias. Só isso já muda a conversa da reunião.
Ordene do maior para o menor e olhe os cem primeiros. Todo item acima de 45 dias de cobertura em mercearia seca merece uma pergunta com nome e sobrenome: quem comprou e por quê.
Compare loja a loja o mesmo item. Onde a cobertura variar muito entre lojas, você tem transferência a fazer antes de comprar qualquer coisa nova.
Estabeleça um teto de cobertura por categoria e coloque no processo de compra. Perecível, seca, não alimentar e sazonal não podem ter a mesma régua.
Revise o saldo de todo item que entrou em encarte, sete dias depois do fim da campanha. É o ponto onde o excesso nasce e ninguém volta para olhar.
Estoque não é patrimônio. É caixa em outro estado físico.
E enquanto ele estiver empilhado no corredor do depósito, você está pagando 14% ao ano para olhar para ele.
Fonte: Copom / Banco Central
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