O relatório não mentiu. O cadastro mentiu.

Você abriu o relatório de margem da semana e uma categoria inteira apareceu com 40% de lucro. Você sabe que aquilo não existe. Ninguém ganha 40% em mercearia básica.
Aí começa a caça. Você chama o TI, cobra o fornecedor do ERP, pede para conferirem o B.I.
O sistema está certo. O que entrou nele é que está errado.
O erro não nasce no relatório. Nasce na digitação.
Todo número que você usa para decidir passou por um cadastro. Preço, custo, peso, unidade de medida, NCM, fator de conversão da caixa, seção, curva, fornecedor. São vinte campos, às vezes trinta. Preenchidos com pressa, por pessoas diferentes, em lojas diferentes, muitas vezes com o caminhão parado na doca esperando liberar.
Um fator de conversão trocado transforma uma caixa com 12 unidades em 12 caixas. O estoque do sistema estufa. A sugestão de compra para de comprar. A gôndola esvazia. E o relatório de ruptura não acusa nada, porque no sistema tem produto sobrando.
Uma unidade de medida errada faz o quilo virar unidade. A margem daquele item vira ficção. E a ficção entra na média da categoria, que entra no fechamento, que entra na sua reunião de segunda.
Oito em cada dez
Segundo pesquisa da GS1 Brasil divulgada pela SuperHiper, revista da ABRAS, em produtos com vários atributos 80% dos casos apresentam pelo menos um atributo incorreto. O mesmo material aponta que 80% das empresas varejistas não têm segurança sobre a qualidade do próprio cadastro. Os dados foram publicados em 2021 e a própria GS1 afirma que a qualidade do dado na ponta não melhorou desde então.
Guarde o segundo número. Ele é pior que o primeiro. O primeiro diz que existe erro. O segundo diz que o varejo sabe que existe erro e segue decidindo em cima dele.
O mesmo levantamento estima 8,7% das vendas perdidas por imprecisão de inventário. Num setor que faturou R$ 1,145 trilhão em 2025, conforme o Ranking ABRAS 2026 feito com a NielsenIQ, é dinheiro que ninguém furta, ninguém quebra e ninguém vence. Só evapora.
O cadastro sujo cobra em quatro lugares diferentes
Na compra. O fator de conversão errado e o custo desatualizado quebram a sugestão automática. Você compra o que não precisa e falta o que gira.
Na gôndola. Descrição truncada gera etiqueta ilegível. Item sem vínculo de similar deixa a promoção passar batida. Preço divergente entre etiqueta e caixa vira discussão no operador, com fila atrás.
No fiscal. NCM e CEST errados não aparecem hoje. Aparecem na autuação, com multa e juros, dois anos depois.
Na decisão. Esse é o mais caro. Você olha um relatório coerente, formatado, bonito, e toma uma decisão de compra ou de preço com base num número que nasceu torto.
Por que ninguém percebe
Porque cadastro errado não faz barulho.
Perda faz barulho: tem laudo, tem foto, tem sangria. Quebra de caixa faz barulho. Falta de produto o cliente reclama. Cadastro errado é silencioso. Ele entrega um relatório impecável com o número errado dentro.
E tem um agravante que cresce todo ano: quanto mais você automatiza, mais caro fica o cadastro ruim. Etiqueta eletrônica, precificação por regra, sugestão automática de pedido, previsão de demanda com IA. Toda automação amplifica o que está no cadastro. Se o dado está limpo, ela acelera o acerto. Se está sujo, ela espalha o erro em velocidade de máquina, em todas as lojas ao mesmo tempo, sem ninguém revisar.
Cadastro não é uma tela. É um processo.
Na maioria das redes, cadastro é uma tela do ERP que qualquer um abre. Não tem dono, não tem padrão, não tem conferência. O item entra porque o caminhão chegou.
Processo é outra coisa. Processo responde: quem pode criar item, qual campo é obrigatório, qual o padrão de descrição, quem confere antes de liberar a venda.
Padrão de descrição, aliás, é o teste mais rápido que existe. Puxe a lista do mesmo refrigerante em três lojas. Se aparecer "REFRI COCA 2L", "COCA COLA 2LT" e "COCA-COLA 2 LITROS", você não tem um cadastro. Você tem três. E nenhum relatório de rede vai conseguir agrupar isso direito.
Segunda-feira de manhã
Não precisa de projeto, nem de consultoria, nem de sistema novo. Precisa de quatro horas e de alguém com acesso ao ERP.
Puxe os itens cadastrados nos últimos 90 dias e ordene por margem. Olhe os 20 maiores e os 20 menores. Margem acima de 60% ou negativa em item de mercearia quase sempre é cadastro, não é venda.
Confira o fator de conversão dos 50 itens de maior giro. Compare a embalagem física com o que está no sistema. É o erro mais comum e o que mais estraga compra.
Rode a busca por descrição duplicada. Item repetido com dois códigos divide o giro, engana a curva e derruba a negociação com a indústria.
Defina o dono do cadastro. Uma pessoa, nome e sobrenome, com a palavra final. Enquanto for de todos, é de ninguém.
Trave o básico. Item sem NCM, sem unidade de medida e sem fator de conversão não é liberado para venda. Um bloqueio no sistema resolve mais que dez treinamentos.
Cadastro limpo não gera lucro. Cadastro limpo evita prejuízo. É por isso que ele nunca entra na pauta da reunião.
E é exatamente por isso que ele precisa entrar.
Fonte: SuperHiper / ABRAS
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